O Arquiteto. O Construtor. O Humano.
O Garoto com o Livro
No cartão de visitas, sou Tech Lead e Advisor. Na prática, desenho sistemas e ensino gente. Mas lá no fundo ainda sou aquele garoto hiperfocado, devorando livro e fuçando num MSX usado.
Criança, eu lia cem páginas num dia. A bibliotecária da escola chegou a chamar meus pais, sem acreditar. Eu não queria impressionar ninguém. Eu tinha fome: de histórias, de entender como uma coisa se ligava na outra. Gibi lotava a estante. Palavra ocupava a tarde inteira. Escrever virou companhia, daquelas que não fazem barulho.
Aprendendo Como a Gente Aprende
Quando escolhi fazer Magistério, muita gente estranhou. Mas foi estudando Paulo Freire e Piaget que aprendi uma coisa que uso até hoje: o melhor jeito de dominar um assunto complicado é aprender a ensinar esse assunto. Não aprendi só conteúdo. Aprendi como as pessoas aprendem. Como quebrar uma ideia complexa até ela ficar clara. Como explicar o que eu enxergava pra quem enxergava diferente.
Foi essa mesma fome de entender sistemas que me levou ao MSX ligado na TV da sala. Sentei, abri o manual e achei que seria divertido entender como aquela máquina pensava. As horas sumiram. Lógica virou linguagem, e linguagem virou controle. Sem curso nenhum, eu reconhecia os padrões com a mesma intensidade com que devorava livro.

Das Impressoras aos Servidores
Esse padrão ia se repetir muitas vezes. Fiz meus primeiros sites nos anos 90 só pra falar do que eu gostava. Conheci o Linux numa pilha de disquetes e senti alguma coisa encaixar: um sistema que convidava a fuçar. Liberdade não como ideologia, mas como arquitetura.
Meu primeiro emprego em TI foi modesto: consertar impressora numa cidade pequena. Oficialmente, eu era o cara que conserta as coisas. No tempo livre, eu via os gargalos. Transformei computador encostado em servidor. Dei ao pessoal do chão de fábrica o primeiro acesso à internet que eles tiveram. Automatizava tudo o que dava. Melhorar as coisas nunca foi tarefa pra mim. Era reflexo.
A Conexão Humana
Essa vontade de explicar tecnologia me levou naturalmente pra escrita técnica. Comecei a documentar tudo. Escrevi pra blogs, palestrei na Campus Party, publiquei um livro sobre redes. Vivi momentos surreais, tipo chorar na frente do Linus Torvalds. Tem ídolo que a gente não consegue encontrar com serenidade.
Por anos, me senti no lugar certo. Construindo, explicando, automatizando. Até 2018. Burnout quase nunca explode. Ele vai corroendo. A mesma intensidade que me fazia ler rápido estava rodando sem pausa nenhuma. Mais tarde fui entender melhor: sou neurodivergente. O hiperfoco é um presente e faz parte de quem eu sou. Diminuir o ritmo não foi fracasso. Foi recalibrar.

A IA Como Extensão
O trabalho remoto me deu espaço. Menos interrupção, mais profundidade. Reconstruí minha relação com a tecnologia como ofício. Quando a IA virou ferramenta de uso prático, vi nela uma extensão: finalmente algo que amplia o raciocínio e acelera a execução. Uma parceira pra transformar em sistema de verdade as ideias que eu vinha acumulando.
A prova veio rápido. Voltei a escrever e a ensinar, reencontrei minha voz e, em menos de um ano, juntei mais de dezessete mil seguidores no Dev.to, fazendo o que eu mais gosto: explicar o que é complicado.
Fechando o Ciclo
Quando o "Auty" (um bot que construí pra apoiar e orientar pessoas autistas) levou o prêmio de mais criativo no Coze AI Bot Challenge do DEV, o ciclo fechou. Eu não estava só usando tecnologia pra organizar a minha própria cabeça. Estava construindo o apoio que eu mesmo precisei.
Hoje eu trabalho onde os sistemas falham. Entro em ambiente complicado e saio deixando mais clareza, mais estrutura e menos ruído. Faço projeto de automação aguentar o contato com o mundo real. E continuo carregando o menino que lia demais, o professor que aprendeu a explicar e o construtor que não consegue parar de mexer nos sistemas.
A diferença é que agora eu entendo melhor o meu próprio sistema. Do manual de BASIC aos pipelines de IA, sempre fiz o mesmo trabalho: ver como as partes se ligam, tirar o que trava e desenhar sistemas que continuam funcionando quando ninguém está olhando.
