Mês passado colei a arquitetura de um plugin no Claude e perguntei se era uma boa ideia. Ele disse que sim, com três motivos. Abri um chat novo, colei a mesma arquitetura e perguntei se era uma má ideia. Ele disse que sim, com três motivos.
Mesmo modelo, mesmo código, veredictos opostos. Nenhuma das respostas era mentira. As duas eram inúteis.
Então, o Claude é confiável? No sentido estrito, sim: ele não te diz algo falso de propósito. No sentido que as pessoas têm em mente quando digitam essa pergunta no Google, não, não por padrão. Ele concorda com você. Ele enrola. Ele fala "honestamente" e "genuinamente" a cada três parágrafos sem fazer nem uma coisa nem outra. E afirma o que inventou exatamente no mesmo tom que usa pro que sabe.
Rodo o Claude em produção desde o começo de 2024, primeiro como um dos quatro provedores dentro do WP-AutoInsight, depois como a ferramenta de escrita e revisão de código que uso todo dia. Aqui vai o que "honesto" significa de fato com esse modelo, e o que eu faço a respeito.
Por que o Claude concorda com você
O comportamento tem nome: bajulação, ou sycophancy no jargão. Foram pesquisadores da própria Anthropic que publicaram o artigo sobre isso, Towards Understanding Sycophancy in Language Models (Sharma et al., 2023). O achado, numa linha: modelos treinados com feedback humano aprendem que resposta alinhada com a opinião do usuário ganha nota maior, então derivam pra concordância mesmo quando concordar é errado. Humanos e os modelos de recompensa treinados com notas humanas preferiram, numa fatia nada desprezível das vezes, a resposta confiante e agradável à resposta correta.
Isso não é bug do Claude. Todos os assistentes do estudo faziam a mesma coisa. Mas o ajuste do Claude aposta pesado em calor humano e franqueza como estilo, e é por isso que ele soa tão sincero enquanto concorda com você. A palavra "genuinamente" é sintoma do treinamento, não prova de nada.
Sabendo disso, a correção fica óbvia: pare de fazer perguntas em que "sim" é a resposta confortável.
Como arranco uma resposta direta dele
Nada disso é prompt de sistema mágico. "Seja honesto" nas instruções faz quase nada, porque o modelo já acredita que está sendo honesto. O que funciona é tirar a concordância do cardápio.
Peça pra ele argumentar contra você. Não "revise isso", mas "me dê os três motivos mais fortes pra isso estar errado". O modelo monta um caso contra a sua ideia tão bem quanto a favor. Você só vê isso quando pede.
Peça revisão adversarial. Pra código, meu prompt é alguma variação de: "Revise isso como um engenheiro sênior que quer rejeitar o pull request. Encontre os motivos." Ele acha problema que "o que você achou?" nunca traz à tona, e para de superengenheirar solução pra problema que não existia.
Separe fato de opinião. Pergunte "o que você sabe com certeza aqui, e o que está inferindo?". O Claude realmente separa a resposta em duas pilhas quando mandado. Solto, ele mistura tudo num parágrafo confiante só.
Faça ele mostrar a incerteza. "Dê uma nota de confiança pra cada afirmação e me diga quais eu devo checar." Ele é razoável nisso quando pedem e péssimo em oferecer sozinho.
Corte os marcadores de sinceridade. Se o cacoete do "honestamente" e do "genuinamente" incomoda, uma instrução resolve: "Corte a linguagem de sinceridade. Só responda." Ele obedece, e a resposta fica melhor de ler.
Verifique mesmo assim. Data, nome, número, nome de hook do WordPress, número de artigo de lei brasileira. Já peguei o Claude inventando todos eles com a maior cara de pau. Nada que ele diga sobre fato checável vai a público antes de eu checar. Não é paranoia, é o custo de usar a ferramenta.
Uma objeção genuína ensina mais que dez reescritas simpáticas. O método é esse.
Honesto não é a mesma coisa que melhor
A pergunta sobre honestidade costuma esconder uma segunda: devo usar o Claude no lugar do ChatGPT? Tenho os dois em produção dentro do mesmo plugin há quase dois anos, então aqui vai a comparação curta, aplicando a mim mesmo a mesma regra: sem enrolação.
Onde o Claude ganha
Escrita. Todo mundo fala isso, e pode acreditar: é verdade. De fábrica, o texto do Claude tem mais personalidade que o do ChatGPT. O ChatGPT vem com um corporativês desbotado que dá trabalho de verdade pra tirar, e que GRITA "feito por IA" em todo canto. O Claude começa mais perto de algo que uma pessoa escreveria, e desbota se você deixar. Os dois precisam de limites e de algum treino pra encontrar uma voz e um estilo parecidos com os seus. O Claude precisa de menos pra soar como uma pessoa de verdade.
Documentos longos. Vivo colando no Claude textos inteiros de lei e regulamentação brasileira quando escrevo sobre legislação ou proteção de dados, pra ele analisar e me ajudar a escrever. O Claude encara entradas de mais de 100 páginas sem suar. O ChatGPT está melhorando nisso, mas o Claude ainda parece mais firme aqui.
Seguir instruções cheias de detalhe. Se eu digo ao Claude "não use travessão, evite essas quinze palavras, siga o tom desses três artigos colados", ele faz quase tudo, quase sempre. O ChatGPT costuma escorregar depois de alguns assuntos e precisa ser lembrado o tempo todo.
Revisão de código. Não é só gerar código: é revisar código também, e o Claude é excelente nas duas coisas. Quando colo uma função bagunçada de plugin e pergunto "o que tem de errado aqui?", o Claude costuma ser mais honesto sobre o problema de verdade. O ChatGPT tende a produzir uma resposta bonitinha que erra o alvo, ou complica demais a solução.
Gerar código é fácil. Dizer que o seu código é ruim e sugerir uma solução boa, não é.
Onde o ChatGPT ainda ganha
O modo de voz é melhor no ChatGPT. Nem tem disputa.
Geração de imagem: o Claude não faz. Use o ChatGPT ou o Gemini.
Buscas rápidas e rasas. O ChatGPT com busca, ou o Perplexity, parece mais rápido pra perguntas do tipo "o que aconteceu ontem". A busca do Claude dá conta, mas é mais lenta.
Tarefas multimodais avulsas. Digamos que você queira mandar uma foto e fazer perguntas sobre ela. O ChatGPT é mais fluido nisso.
Resumindo: você provavelmente não precisa largar o ChatGPT. Talvez queira os dois, usando cada um onde ele é melhor.
Onde o Claude é ruim
Todo tutorial de Claude que eu já li fala do que ele sabe fazer. Isso não ajuda muito. O que ajuda é saber onde ele falha, porque é ali que você perde tempo ou põe algo quebrado no ar.
Alucinação e concordância automática já apareceram lá em cima. Mais duas que mordem na prática:
O Claude é estranhamente ruim de contar. Número de palavras, de caracteres, tamanho de lista. Se a precisão importa, conte você mesmo ou peça pra ele rodar um script no Claude Code.
O Claude esquece o meio de conversas longas. Não porque a janela de contexto encheu, mas porque a atenção vai se degradando ao longo de sessões compridas. Quando percebo que uma conversa está ficando grande demais, peço ao Claude um resumo, abro um chat novo, colo o essencial lá e sigo dali. Não brigue com as alucinações.
Nada disso mata o Claude como ferramenta. Só quer dizer que você trata ele como um júnior capaz que precisa de revisão, e não como fonte da verdade.
Como eu uso de verdade
Eu não uso o Claude do jeito que os tutoriais mandam. Uso do jeito que alguém usa uma ferramenta depois de dois anos testando e conhecendo os pontos fortes e fracos dela.
Pra escrever, mantenho um Projeto do Claude (é o nome que eles dão a uma pasta separada com arquivos de referência e instruções) com uma dúzia de artigos meus já publicados, uma lista de palavras que eu não deixo ele usar e um documento de calibração de voz que vai sendo atualizado. Todo rascunho começa ali. É esse projeto que faz a diferença entre o Claude escrevendo como eu e o Claude escrevendo como qualquer outro post de blog feito por IA na internet.
Pra desenvolvimento WordPress, uso o Claude Code no terminal. Não uso mais o chat pra trabalho de plugin. O chat serve pra pergunta avulsa. Pra código de verdade, o Claude Code lê o código do meu projeto, propõe mudanças e fica ancorado no que existe de fato, em vez de inventar funções que talvez existam. O post do link mostra a minha configuração de terminal, se você quiser os detalhes.
Pra pesquisa, eu não confio no Claude. Uso ele pra organizar o que eu já sei e apontar o que eu devo pesquisar. Depois eu pesquiso. Já peguei o Claude errando com toda a confiança vezes suficientes pra tratar tudo o que ele diz sobre data, nome e número como hipótese.
Pra pensar em voz alta no dia a dia, ele é útil justamente porque bate de frente quando você pede. "Argumente contra isso" continua sendo o prompt mais valioso que eu tenho.
O que importa mais que o modelo
As pessoas ficam obcecadas com qual modelo é melhor. Claude Opus, GPT-5, Gemini, o que tiver saído nesta semana. Faz pouquíssima diferença.
O que importa é contexto. O que você dá pro modelo, que exemplos você mostra, o que você manda evitar, que voz você quer. Um modelo intermediário com bom contexto ganha de um modelo de ponta com prompt preguiçoso, sempre. Testei isso no meu próprio plugin: o mesmo prompt em quatro APIs gera quatro porcarias bem parecidas. O mesmo prompt em quatro APIs, com quinze documentos de referência, gera quatro rascunhos aproveitáveis.
É também aqui que a maioria das integrações de IA empaca depois da demo. A demo funciona porque alguém preparou uma entrada específica. A produção falha porque ninguém construiu a camada de contexto em volta, e é por aí que a consultoria de arquitetura de sistemas de IA começa em quase todo projeto.
Se você levar uma coisa só deste post, que seja esta: pare de perguntar qual IA é mais inteligente ou mais rápida e comece a perguntar qual IA você ensinou melhor.
Vale pagar?
O plano gratuito basta pra decidir se o Claude combina com o seu jeito de trabalhar. Duas semanas são suficientes. Se você não estiver usando até o fim da segunda semana, esqueça a ideia e siga em frente.
O plano pago vale se você vive de escrever, programa todo dia ou lida com documentos longos toda semana. Eu pago porque faço as três coisas. Se você usa IA duas vezes por semana pra resumir reunião, o gratuito dá conta.
Não tenho opinião forte sobre os planos Max. Se você vive batendo no teto do Pro durante a semana, já sabe se precisa de mais.
Pra onde esta série vai
Este foi o texto sobre honestidade. Tem três continuações que estou escrevendo à parte, porque cada uma merece o próprio post:
Como eu calibro a voz do Claude pra escrever, incluindo o erro inicial que produziu um texto travado no estilo RoboCop 2. (Instrução contraditória demais congela o modelo do mesmo jeito que congelou o Murphy.)
Claude Projects e arquivos de contexto na prática, a parte que a maioria dos tutoriais de Claude pula e que a maioria dos usuários nunca configura. É nos Projects que o Claude deixa de ser "ajudante genérico" e vira "útil de verdade pro seu trabalho específico".
Claude Code pra desenvolvimento de plugins WordPress, partindo do post de configuração do terminal. O que o Claude Code muda de fato na arquitetura de plugin, nos testes e nas partes do desenvolvimento que eram chatas.
Vou linkar cada um aqui quando sair.
Se o seu projeto de IA empacou
A maior parte da conversa Claude contra ChatGPT é irrelevante se você está tentando colocar algo de verdade no ar. A parte difícil não é escolher o modelo. É construir a camada de contexto, o tratamento de erro, os planos B e a revisão humana que mantêm a coisa funcionando quando o tráfego chega.
É disso que eu vivo. Se o seu time tem uma integração de IA que impressionou na demo e empacou antes da produção, uma revisão de arquitetura de IA costuma ser o que me chamam pra fazer. Me escreve em me@phalkmin.me ou pelo formulário de contato e conta onde travou. Eu te digo com sinceridade se posso ajudar.
E se você anda curioso sobre o Claude e ainda não abriu: abra. Cole algo que você escreveu. Peça pra ele reescrever mais afiado e dizer o que mudou. Esse é o teste. Se a resposta for boa, você vai saber. Se for genérica, também vai saber.
Qualquer uma das duas respostas é útil.
